"Nem que IA faça músicas minhas melhor do que eu, continuarei a fazê-las"

  • 09/01/2026

Depois de ter esgotado três datas na Super Bock Arena, no Porto, e na MEO Arena, em Lisboa, no ano passado, na celebração dos 20 anos de carreira, Miguel Araújo conversou com o Notícias ao Minuto e começou por recordar precisamente estes referidos espetáculos que, diz, foram "inesquecíveis". 

 

"Foram incríveis, espetaculares. Os do Porto correram super bem, sem grandes incidentes", lembrou, contando depois que quando rumou à capital "teve um pequeno incidente". 

"Fiquei doente, estava cheio de febre. Dois dias depois fiz o teste e era Covid, mas não sabia. Sentia-me fisicamente muito mal. Tanto que fui ficando afónico, mas depois o público pegou no concerto às costas, pegou em mim ao colo e levou aquilo até ao fim. Toda a gente cantou, foi uma coisa espetacular. Saí de lá de alma cheia, quase que compensou estar doente", partilhou o cantor, que integrou anteriormente a banda Os Azeitonas. 

Agora, 2026 inicia-se com mais um capítulo neste caminho a solo ao lançar o novo álbum de originais, "Por Fora Ninguém Diria", no dia 1 de janeiro. Será apresentado no Teatro Municipal de Vila Real a 14 de fevereiro, depois, no Convento de São Francisco, em Coimbra, a 12 de março, no Teatro Municipal da Guarda a 24 e 25 de abril, seguindo para o Theatro Circo, em Braga, a 30 de abril. Miguel Araújo subirá ao palco com a sua banda e irá trazer outros temas além destas novas músicas. 

Este disco - que chega depois de "Chá Lá Lá", de 2022 - junta 11 canções, que foram feitas ao longos dos últimos três anos e todas escritas, compostas, produzidas e interpretadas por Miguel Araújo. São elas: "Meia Vida"; "Sinto Muito"; "Elogio da Preguiça"; "Civilização"; "Fonte de Moura"; "Céu"; "Dores"; "As Vidas Que Esta Volta Dá"; "Charlie Brown"; "Aprendi Por Mim"; Não Vou Mudar". 

Já disse que quando fez o disco "Cinco dias e meio", em 2012, "nunca pensou que fosse ter um concerto, sequer" - não estava confiante quanto a uma carreira a solo, no fundo. Mas o que é certo é que conquistou o público e o tema "Os Maridos Das Outras", por exemplo, virou êxito. Podemos considerar que, talvez, não ter expectativas ter-lhe-á dado uma certa liberdade criativa que foi enriquecedora? 

Acho que sim, podemos falar exatamente disso. Na altura, estava n'Os Azeitonas e isso era a minha prioridade. Fiz o meu disco só mesmo para deixar algumas músicas que tinha postas de lado, que não entrariam muito convenientemente no repertório d'Os Azeitonas, e gravei aquilo com autêntica displicência. Não tinha, sequer, feito uma banda. Não tinha pensado em ter uma banda para me acompanhar caso aquilo tivesse um concerto que fosse.

Apareceu um concerto em Rio de Mouro, nunca mais me esqueço, claro, foi em julho de 2012, na altura em que faço anos. Tive de ir à pressa arranjar músicos para tocar comigo porque não estava a contar com isso. Entretanto, a música entrou na rádio, fui muito solicitado e a minha banda começou a crescer. Na altura éramos só 4, agora já somos 12. A banda foi juntando gente ao longo dos anos e a minha carreira a solo tornou-se de tal maneira que tive que deixar de participar n'Os Azeitonas, porque já não dava.

Claro que há pressão, o segredo é saber viver com ela, saber enfrentá-la e não deixar que isso seja um entrave

Em relação a este novo álbum, "Por fora ninguém diria", revelou anteriormente que "foi sempre fazendo o seu trabalho diário, e um belo dia reparou que tinha ali um disco". Faz questão de continuar com esta liberdade artística?

Sim, faço a coisa muito diariamente. Tenho estúdio em casa, então vou sempre para o estúdio empurrar o arado. É uma jardinagem diária que faço com a consequência que acabam por nascer canções, inevitavelmente. Ao fim de algum tempo vou ver o que é que tenho e embrulho tudo num disco, que foi o que fiz neste caso. Já não editava um disco desde 2022. Este é o resultado de três anos de trabalho diário.

Mas alguma vez se sentiu, ao longo destes 20 anos de carreira, condicionado a algum tipo de pressão ou desde sempre conseguiu ser livre na música?

Livre sempre fui, só que nos primeiros discos não sabia muito bem. Cheguei a ter concertos marcados de apresentação de discos que não estavam completamente prontos - aconteceu duas vezes, com o segundo disco e o "Giesta". Tive de fazer as misturas um bocadinho à pressa porque tinha de sair naquele dia, tinha de ir para à fábrica, senão não saía a tempo dos concertos... Senti muita pressão no princípio. Por isso, agora a maneira de lidar com a pressão é evitá-la, é não fazer nada que me pressione.

Marquei os concertos com o António Zambujo em 2016 e não fazíamos ideia o que é que íamos fazer. De repente, estavam não sei quantas datas vendidas e nós não tínhamos feito um único ensaio. Claro que há pressão, o segredo é saber viver com ela, saber enfrentá-la e não deixar que isso seja um entrave. 

É gravado sem recurso à inteligência artificial, nem nada disso, tudo o que existe foi tocado pelos meus dedos

E como descreve este novo álbum?

Não sei. O próprio título é enigmático, não sei muito bem o que é que quer dizer, foi uma frase que fui buscar a uma das músicas - a primeira música tem esta frase. Não tinha nenhum nome para dar ao disco e essa frase pareceu-me bonita. É misteriosa e enigmática o suficiente para eu também não saber o que é que quero dizer com ela, e o disco também é um bocado assim. É um disco de canções que foram sendo feitas ao longo destes três anos, algumas já estavam escritas, outras foram sendo escritas ao longo do processo. E é um bocadinho o espelho do que sou, do que faço, do que é o meu dia a dia, do que é a minha vida.

É um disco simples, mas ao mesmo tempo complexo porque gravei os instrumentos todos de uma maneira simples, mas depois também não é fácil, demora. É gravado sem recurso à inteligência artificial, nem nada disso, tudo o que existe foi tocado pelos meus dedos. Tenho esse rigor das coisas serem direitinhas, perfeitinhas, repetir várias vezes até sair bem. 

"Por fora ninguém diria" traz-nos alguns temas calmos/melódicos. Como foi o processo de construção? O que serviu de inspiração - tendo em conta que as músicas foram feitas ao longo do tempo - tanto a nível instrumental como as letras?

Sou muito respeitador das minhas ideias. Se uma ideia me aparece, não descanso enquanto não lhe dou forma, da mesma maneira que também não questiono ideia. Não tento inventar por cima. E as ideias/músicas aparecem-me na cabeça. Sento-me ao piano - a maior parte das vezes é aqui no piano da minha salinha de casa – e vou atrás dessa ideia, e respeito-a ao máximo, não tento melhorar, não questiono se aquilo é pertinente ou não, se é bom, se é mau, se gosto ou não, são questões que não deixo que interfiram. Não penso "agora vou lançar um disco mais calmo". Esses pensamentos não estão na minha mente.

A maneira como abordo os instrumentos é a maneira como abordo a minha fala, o meu vocabulário, o meu sotaque. É a minha linguagem musical de uma maneira muito natural, é uma coisa que não penso, não fabrico, e exprimo-me através dos instrumentos dessa maneira muito simples. É assim que faço música. Este disco não me difere em nada. Não tento ambicionar ser mais do que já sou, mas também não me permite ser menos do que sou. É o resultado disso. Não é muito fácil de explicarmos [risos].

Estou sempre a trabalhar em músicas e mais de metade nunca vão sair, mas trabalho nelas com o mesmo carinho. Volta e meia, lanço algumas coisas

Já tem concertos marcados para apresentar este novo álbum. Há alguma coisa planeada? Vai trazer convidados?

Já anunciei os concertos da apresentação do disco, que serão esses e apenas esses. Mas já tenho muito mais concertos marcados normais - fora do âmbito do disco. Antigamente, fazia-se muito isso, gravava-se um disco e depois os dois anos seguintes eram concertos subordinados a esse disco. Eu pelo menos não faço isso, ou seja, vou fazer estes concertos de apresentação em que vou centrar-me neste disco, mas depois vou para a estrada normalmente, tendo como opção todas as músicas do meu repertório e mais algumas.

Não tenho planeados convidados concretamente para este disco, porque até foi feito só por mim, não tenho outras vozes, não tenho nada. Mas nos outros concertos há sempre aquele amigo que também está no cartaz nesse dia e com quem se faz uma "palhinha" (como dizem os brasileiros) em palco. Está tudo em aberto, mas já tenho 20 e tal concertos marcados. Vai ser um ano muito preenchido como têm sido todos.

Os Azeitonas resultaram de uma brincadeira que depois se tornou um sucesso. Mas quando começou a fazer os primeiros trabalhos a solo foi por querer explorar outros lados da música?

Acho que sim, o meu primeiro disco é exatamente isso, as músicas que não iam estar nos discos d'Os Azeitonas e também tive pena de ficarem na gaveta a apodrecer. Como trabalho diariamente sem pensar no "vou agora começar um disco, vou agora escrever para um disco", não divido a minha timeline cronológica assim dessa maneira. Estou sempre a trabalhar em músicas que tenho para aqui e mais de metade nunca vão sair, mas trabalho nelas com o mesmo carinho. Por isso, volta e meia, lanço algumas coisas cá para fora. É aquele, como se diz, o dumping no Instagram. Os meus discos são tipo um vazador do que tenho. 

Há músicas que fiz para cantoras, principalmente, que eu não conseguiria sequer cantar. Tenho essa liberdade também, de repente poder sair fora de pé daquilo que são as minhas limitações

O Miguel Araújo também compõe para outros artistas e, diz, essa é uma "das grandes alegrias". Escrever para outros é uma forma de libertar-se das canções e conseguir ouvi-las enquanto ouvinte? 

Tem isso, que é uma coisa maravilhosa, e também um bocadinho [o lado de] fazer músicas que extravasam os limites da minha própria voz e da minha própria existência. Há músicas que fiz para cantoras, principalmente, que eu não conseguiria sequer cantar. Tenho essa liberdade também, de de repente poder sair fora de pé daquilo que são as minhas limitações. É uma coisa muito libertadora nesse aspeto.

E quando são interpretadas por si é mais difícil sair do papel de autor?

Sim, porque quando faço as músicas, por exemplo, "Pica Do Sete", o António Zambujo gravou e eu quando canto estou quase como se fosse a fazer uma quebra da versão dele, porque a minha não era bem assim. Sou também afetado e influenciado pelas versões que os outros fazem das minhas músicas, e quando as canto em palco já quase que estou a submeter um bocadinho aquilo que veio de lá. É engraçado isso.

Como vê a sua evolução enquanto artista ao longo destes 20 anos?

A minha voz não mudou. No entanto, está completamente diferente. É aquela dualidade/paradoxo entre nada muda e tudo muda. A minha voz é diferente, eu em palco estou diferente. Vejo vídeos meus antigamente e estava muito mais tenso, mais preso. Agora estou muito mais à vontade. É uma coisa antinatura, para mim, ir para cima de um palco, mas ao longo de 20 anos a fazê-lo já faço com uma naturalidade como quem vai do quarto até à sala - para mim é uma extensão da minha casa. Nada mudou, e tudo mudou. Sou totalmente outra pessoa em relação ao que era em 2012, em 2005, 2006, quando comecei. A minha evolução tem sido, não forçada, mas respeitante do envelhecimento, do passar do tempo. 

Gosto de fazer músicas e vou continuar a fazê-las, nem que a inteligência artificial faça músicas minhas melhor do que eu. Mas há muitas ferramentas que vão aparecer, e muito úteis, e vou abraçá-las

Há pouco falou sobre a inteligência artificial. Como é que vê a evolução da música? Esta nova era assusta-o?

Fascina-me e assusta-me ao mesmo tempo, em iguais medidas. Instalei um programa que é o Suno e aquilo é uma coisa inacreditável. Ponho a minha maquete gravada a voz e guitarra para o telemóvel e aquilo transforma numa grande produção em 30 segundos. Ao mesmo tempo, aquilo também é horrível, o som é muito plástico, é péssimo. Mas porque não considerar aquilo uma ferramenta criativa para me gerar várias versões? Penso, se calhar está-me aqui a dar ideias que eu não teria. É assustador e fascinante ao mesmo tempo, é como o princípio de tudo.

Depois também é fascinante ver os programas como o Pro Tools e o Logic, que são os softwares onde aprendi a fazer música, que até há muito pouco tempo eram consideradas uma inovação perigosa que punha em causa o analógico e a maneira como se fazia antigamente. E é engraçado como com os novos softwares da inteligência artificial, esses softwares que ainda anteontem eram considerados bastante rebeldes, já são considerados coisa de antigamente e coisa de avôzinho. Isto é tudo muito engraçado, mas a vida sempre foi assim e nunca há de ser diferente. E eu aceito o progresso, claro. 

É uma questão de acompanhar a evolução, mas tendo sempre os limites presentes?

Aquela coisa da inteligência artificial que cria músicas do nada. Por exemplo, faz uma música sobre o meu cão a fazer asneiras, e aquilo dá-me isso mesmo – coisa que está a acontecer neste preciso momento, está ali o Jorge a roer bocados de um lego, por isso é que me lembrei de dar este exemplo [risos].

No meu caso, isso nunca se vai colocar porque gosto de fazer músicas e vou continuar a fazê-las. Nem que a inteligência artificial faça músicas minhas melhor que eu, vou continuar a ser eu a fazê-las. Mas há muitas ferramentas que vão aparecer e muito úteis para se fazer coisas em estúdio, que vão poupar muito tempo, e vou abraçar isso com muita alegria e entusiasmo.

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FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/cultura/2914396/nem-que-ia-faca-musicas-minhas-melhor-do-que-eu-continuarei-a-faze-las#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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